Sua terra como garantia da dívida? Atenção antes de aceitar a renegociação

Quando o produtor rural enfrenta dificuldades para pagar um financiamento, o banco pode oferecer uma renegociação com novas condições. Mas, em alguns casos, a […]

Quando o produtor rural enfrenta dificuldades para pagar um financiamento, o banco pode oferecer uma renegociação com novas condições. Mas, em alguns casos, a proposta vem acompanhada de uma exigência perigosa: colocar a propriedade rural em alienação fiduciária.

Na prática, isso pode transformar uma dívida em risco direto para a terra que sustenta a família e garante a continuidade da produção. Se houver inadimplência, o credor poderá iniciar o procedimento legal para consolidar a propriedade e levá-la a leilão.

Para o pequeno produtor, porém, existe um ponto fundamental: a pequena propriedade rural trabalhada pela família recebe proteção constitucional. O artigo 5º, XXVI, da Constituição Federal, e o artigo 833, VIII, do Código de Processo Civil, protegem esse imóvel contra a penhora, desde que sejam comprovados os requisitos legais.

Em dezembro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que essa proteção pode impedir a tomada extrajudicial da pequena propriedade rural familiar mesmo quando ela foi oferecida em alienação fiduciária. Ou seja, a assinatura do contrato não afasta, por si só, a proteção legal. A aplicação desse entendimento depende das características do caso e da comprovação de que a propriedade é pequena e explorada pela família.

Mas atenção: isso não significa que o produtor deva assinar a garantia confiando que poderá discuti-la depois. Enfrentar uma disputa judicial pode consumir tempo, dinheiro e tranquilidade, enquanto o patrimônio fica ameaçado.

Antes de aceitar uma renegociação que exige a terra como garantia, é importante avaliar outra possibilidade: o alongamento da dívida rural. O Manual de Crédito Rural prevê a prorrogação em situações específicas de dificuldade temporária de pagamento, como frustração de safra, dificuldade de comercialização ou ocorrências que prejudiquem a exploração, desde que atendidos os requisitos aplicáveis e demonstrada a capacidade de pagamento.

O alongamento não é automático, e cada operação precisa ser analisada. Por isso, reunir documentos sobre as perdas, a produção, o fluxo de caixa e as condições do financiamento pode ser decisivo para fundamentar o pedido.

A dívida precisa ser enfrentada, mas a solução não deve colocar em risco, sem análise, a terra que sustenta a família. Antes de assinar uma nova renegociação com alienação fiduciária, procure orientação especializada e verifique se há fundamento para pedir o alongamento do crédito rural.

Não comprometa sua propriedade sem antes conhecer seus direitos e as alternativas legais.

Ana Paula Moreira Mataveli
Advogada do Agro – alongamento de dívidas, proteção patrimonial e análise contratual.